A volta do plantio manual da cana-de-açúcar

É comum ver grandes máquinas nos canaviais brasileiros, seja no período de colheita, seja durante o plantio ou na renovação. Mas este cenário está mudando em algumas usinas na época de plantio. As usinas estão deixando de lado o plantio por máquinas, voltando no tempo e optando pelo manual. O motivo do regresso é a busca pela melhor qualidade de brotação das sementes ou mudas, que eleva a produtividade e a qualidade da plantação.

A Diana Bioenergia, em Catanduva (SP), é uma das usinas que está apostando no plantio manual. Em 2018 a empresa do interior paulista começou a conciliar o plantio mecanizado com o manual. No ano passado, 30% da área desenvolveu o plantio manual, já este ano subiu para 85%. E, no ano que vem 100% do plantio será manual nas terras próprias. Assim, em 2020, a estimativa é que os três mil hectares da usina usem apenas trabalhadores rurais na plantação. Segundo Lucas Kellner, gerente agrícola da Diana Bioenergia, na última safra a usina colheu 1.228.000 toneladas de cana, mas o resultado do plantio manual será maior no próximo ano. “Em 2020 teremos uma melhor produção que será o reflexo do forte plantio manual que tivemos este ano”, pontua. Atualmente, a área de plantio da Diana Bioenergia é de 23 mil hectares – somando fornecedores, arrendamento e terras próprias. Exemplo: A CRV Industrial, localizada em Rubiataba (GO), já tem 100% do plantio dos canaviais de forma manual. A usina conta com 3.500 hectares de plantação. Segundo o superintendente agrícola, Joaquim Malheiros, a empresa colocou na balança e, há quatro anos, só faz o plantio manual. “Resistimos ao mecanizado e optamos por contratar mais pessoas e ter um plantio de mais qualidade”, revela.

Vantagens
Tanto no interior paulista como no território goiano, as usinas optaram pelo plantio manual devido a confiabilidade na brotação e na redução no uso de sementes e mudas. Para se mensurar, na Diana Bioenergia são usadas dez toneladas de mudas por hectare no plantio manual já no mecanizado sobe para 14 toneladas.
“Com os trabalhadores no campo conseguimos uma cana com melhor brotação, com mais vigor e maior resistência à seca e a pragas. Além de ter mais plantas por hectare já que reduzimos a quantidade de falhas do plantio”, revela Malheiros.

Outra vantagem do retorno do plantio manual é a possibilidade de trabalhar em áreas com relevo mais acidentado. “No final, o custo do plantio mecanizado e manual se equiparam, mas devido a maior qualidade e produtividade optamos pelo segundo”, pontua o superintendente. Kellner afirma que se observou um aumento de 8% de produtividade (TCH) e um acréscimo de 50% em relação à cana que era utilizada para muda. Esse 50% não era transformado em produto. “Com o plantio manual foi observado o ganho que tivemos com a redução de muda, redução de falhas e, consequentemente, aumento de produtividade e assim, a mudança se tornou viável”, relata. Mas ele revela que o plantio mecanizado tem suas vantagens, mas que não superam o manual. De acordo com o profissional, um dos benefícios é em relação ao tempo que o sulco de plantio fica aberto em comparação ao feito artesanalmente. “No mecanizado o sulco é aberto, coloca-se a muda e é fechado simultaneamente, já no manual o sulco pode ficar aberto até 24 horas, com essa situação pode se perder umidade do solo”, expõe.

Mão de obra
Além de aumentar a quantidade de cana moída com uma qualidade melhor da germinação da cana e densidade populacional, outra grande vantagem é a geração de empregos. Em Rubiataba, 400 pessoas da região trabalham no plantio direto entre os meses de janeiro e abril. Após esse período uma parte da mão de obra é aproveitada no corte manual – na unidade cerca de 10% não é mecanizado – ou na irrigação. “Assim, desenvolvemos um trabalho de cunho social e conseguimos manter os postos de trabalho durante o ano inteiro”, afirma Joaquim. No interior paulista 220 pessoas realizam o plantio.

Tradição
Outra vantagem do método antigo é a possibilidade de fazer Meiose (Método Interrotacional Ocorrendo Simultaneamente). Ambas as usinas têm adotado essa prática a fim de acelerar a adoção de novas variedades mais produtivas e modernas, resultando no aumento de produtividade. “Este método contribui ainda mais para a redução do gasto de mudas e melhora da qualidade do nosso plantio”, explica Kellner. Malheiros afirma que atualmente 30% das unidades sucroenergéticas da região Centro-Sul do país realizam este processo que é totalmente manual. Em resumo o método faz o plantio de uma linha de cana e, após um período entre oito a 12 meses, a linha é multiplicada. Canal-Jornal da Bioenergia.

Fazer uma manutenção das usinas de forma adequada é garantir reduções nos custos da empresa. Se por um lado os gastos com reparos podem ser muito altos, prevenir e monitorar os equipamentos das usinas pode ser uma boa estratégia de identificar problemas antes que seja tarde demais. Óleo, termografia, análise de vibração e inspeções sensitivas são alguns dos pontos a serem observados.

Se a usina trabalha com uma entressafra menor, e além da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar também produz o biocombustível com milho e sorgo, o distanciamento entre as safras praticamente deixa de existir. Dessa forma, programar a manutenção corretiva e preventiva é ainda mais importante. Isto porque, os equipamentos precisam estar mais confiáveis no restante do ano.

Diretor da Ajel, que presta serviços de manutenção a usinas, Arley Pereira afirma que o uso da preditiva é essencial para um bom planejamento das manutenções. Depois desta etapa, as empresas passam a ter ciência de quais equipamentos realmente necessitam passar por uma manutenção corretiva e preventiva. Esta é uma boa forma de trabalhar de maneira assertiva e diminuir o custo. “Uma boa manutenção na entressafra evita paradas inesperadas que, durante o período de trabalho intenso, podem causar prejuízos incalculáveis”, explica.

Na Usina Rio Claro, localizada em Caçu, a 335 km de Goiânia, a forma encontrada para reduzir os custos foi manter uma equipe interna de controle e também de preditiva e preventiva. No total, 194 funcionários atuam na parte industrial (operação e manutenção). Hoje, 80% do trabalho é realizado internamente e apenas 20% é contratado de uma empresa terceirizada.

“Estou na empresa há seis anos e, antes desse cenário tínhamos 60% da manutenção feita de forma interna e 40% ficava a cargo das empresas contratadas. O resultado desta modificação que tivemos foi uma economia de praticamente 20% nos custos. Para isso, o trabalho é quase que diário e temos um sistema de monitoramento que auxilia esta ação”, explica Paulo Sérgio, gerente de manutenção da Usina Rio Claro, que pertence ao grupo Atvos.

Paulo explica que a usina é uma das seis unidades do grupo. Nesta, apenas a cana-de-açúcar é processada. Desta forma, o período de entressafra vai de quatro a cinco meses, começando sempre no final de outubro e seguindo até março ou abril. O começo da nova safra depende do período chuvoso e, desta forma, só é possível saber de fato quando retornam os trabalhos, em meados de fevereiro. Este é o período do ano em que as empresas faturam apenas 5% do total equivalente ao ano e, por esse motivo, a revisão do maquinário é mais propensa. Isto também significa dizer que, se existir atraso na hora de colher, o tempo de atuação da usina será reduzido.

“Com a ação da equipe de preditiva, sabemos exatamente há quanto tempo cada máquina passou por manutenção e o que mede uma planta industrial é a disponibilidade da tela. A nossa meta de disponibilidade era de 97,5% e estamos entregando 99,5%. Esse resultado é fruto de planejamento e muito trabalho. Fazemos uma gestão de rotina e sabemos a condição da nossa empresa. Trabalhamos com liberação de motores, bombas, análise de olho”, exemplifica. Com produção diária de 1800 m3 de etanol em duas destilarias, a safra na usina está encerrando com 275 milhões de litros produzidos além de 300 gigawatts de energia.

Arley Pereira, explica que o grupo Ajel disponibiliza equipes qualificadas para manutenção preventivas, preditivas e corretivas in loco ou na assistência técnica da empresa. Ele ressalta que o principal desafio hoje é viabilizar uma boa estrutura de pessoas e equipamentos compatível com o recurso das indústrias.

A influência do clima na produtividade de usinas de cana-de-açúcar e biodiesel está despertando nos empresários a necessidade de informação. Mas, transformar dados em ações ainda é uma realidade longe do ideal e aí não basta medir a quantidade da chuva, da radiação solar ou a temperatura do ar. É preciso saber quais decisões tomar a partir destes dados para garantir além da produtividade, maior retorno financeiro.

Fábio Marin, professor do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo, explica que o clima ainda é um dos fatores menos estudados do campo da bioenergia. Apesar disso, o professor afirma que grandes e pequenos grupos estão cada vez mais conscientes desta importância. Para ele, a dificuldade de lidar com o tema se dá pelo fato de que a maioria dos cursos de Ciências Agrárias não dá a atenção merecida para esta linha de formação.

“Em qualquer setor há uma diferença entre dados e informação. A maioria das usinas possui os dados mas ainda possuem uma grande dificuldade em avançar no plano de ações. É essa análise que resula em redução de custos e/ou aumento de receita”, afirma o professor. Ele diz ainda que, normalmente, as usinas contam com estações meteorológicas instaladas internamente, mas que além do serviço público, muitas empresas já estão disponibilizando aluguel de estações e armazenamento de dados meteorlógicos na nuvem. “Já contamos com alta qualidade na prestação de serviço no campo da agrometereologia”, completa.

USP oferece monitoramento

A Esalq/USP possui um serviço de de extensão denominado Tempocampo. Idealizado e coordenado pelo professor Fábio Marin, o sistema monitora mais de 800 mil hectares de cana em todo o Centro-Sul brasileiro, os 200 municipios maiores produtores de milho do Brasil e toda a soja do Mato Grosso, Paraná e do Matopiba. Entre os serviços prestados estão:  monitoramento e previsão do tempo; previsão de safras; risco de quebra de produtividade em função da época de semeadura, além da ocorrência de doenças e pragas. O serviço opera na universidade desde 2016, mas foi concebido e testato em 2010.

Suporte do Inmet no país todo

Meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Danielle Ferreira explica que, apesar de o instituto não fornecer recomendações de forma direta aos tomadores de decisão, dispõe, de uma ferramenta de apoio chamado Sistema de Suporte à Decisão na Agropecuária (Sisdagro). O sistema utiliza informações registradas em uma rede de estações meteorológicas do Inmet, distribuídas em todo o território nacional. “Também oferecemos dados obtidos por modelo de previsão numérica do tempo referentes às variáveis: temperatura, precipitação, umidade relativa do ar, velocidade e direção do vento e radiação solar.

Por meio destes dados meteorológicos, o sistema pode monitorar as condições vigentes de uma determinada cultura até a data da consulta ao sistema, bem como condições previstas para os próximos cinco dias. Também é posssível quantificar a perda de produtividade da cultura em porcentagem, penalizando-a em função somente da deficiência hídrica, ou seja, utiliza uma relação matemática que relaciona a queda relativa da produtividade de uma cultura com o déficit relativo de evapotranspiração.

A meteorologista também aponta outra ferramenta importante para o setor agrícola: previsão climática sazonal do Inmet. “De acordo com o comportamento das chuvas e temperatura, as decisões sobre a época de plantio e colheita, tipos de manejo mais apropriados, entre outros, devem ser feitos de acordo com o cenário climático para três meses à frente, de modo que a referida cultura não seja prejudicada por condições climáticas adversas”, pontua.

Ela finaliza dizendo que, de posse destes resultados, os usuários em geral (produtores e extensionistas rurais, técnicos agropecuários e agrônomos, pesquisadores, etc) podem tomar sua decisão, levando em consideração que os fatores climáticos são preponderantes para o sucesso da produtividade agrícola.

Coeficiente de Produtividade Climática é indicador importante

O Coeficiente de Produtividade Climática (CPC) é um indicador que foi desenvolvido pela USP e é calculado pela razão da produtividade de tonelada de cana por hectare, por exemplo da safra atual e a produtividade da safra anterior. A variação normal é de 0,7 a 1,3. Se o CPC for maior que a unidade, o sistema indica melhora no clima da safra atual comparada à anterior.

Por outro lado, se o CPC fica abaixo de um, o resultado é negativo e a tendência é de que o clima da safra atual resulte em condições de produtividade inferiores à safra passada. A USP exemplifica: “se o CPC para uma dada localidade foi de 1,02, o modo correto de interpretar este valor é de que clima dessa safra elevará a produtividade em 2% em relação à safra passada. Se o CPC é igual a unidade, a indicação do Sistema Tempocampo é de que o clima da safra atual vem resultando no mesmo nível de produtividade da safra anterior”.

Efeito estufa precisa ser considerado

O país já conta hoje com tecnologia que monitora de perto o aumento no buraco da camada de ozônio e o efeito estufa dificulta, e muito, a produção agrícola. Entre os fatores que contribuem para este aumento: poluição crescente do ar, desmatamento e uso descontrolado de combustíveis fósseis. O ecossistema do planeta amarga prejuízos e o resultado se reflete, claro na agricultura. O cuidado então é necessário já que, com alta incidência de raios solares a produção agrícola pode se comprometer e ter como consequência, escassez de alimentos.

Canal-Jornal da Bioenergia

Dezembro foi marcado por chuvas abaixo da média nas principais regiões canavieiras do Centro-Sul. De acordo com o Índice Relativo de Chuva (IRC), calculado pela DATAGRO Consultoria, o índice de precipitações na região foi de 119,3 mm, 46,6% abaixo da média histórica.

O cenário de clima seco começa a preocupar os produtores. No último mês, agrônomos da DATAGRO identificaram em alguns canaviais de São Paulo problemas em solos arenosos, onde folhas das plantas começaram a enrolar. No estado, as chuvas estiveram 53,2% abaixo do normal em dezembro, quando o índice de chuvas chegou a 102,4 mm.

Para os próximos meses, as previsões climáticas indicam um cenário de chuvas esporádicas e menos distribuídas. Mesmo sob os efeitos do El Niño, que tem 90% de chances de acontecer neste ano, as precipitações podem ficar abaixo do esperado no Centro-Sul.

Mesmo com prognóstico de clima seco, ainda é cedo para dizer qual efeito esse cenário terá sobre o volume de cana que será processada. Para 2018/19, a DATAGRO estima que a moagem de cana na região alcance 564,5 milhões de toneladas.

Uagro

O Brasil tem a capacidade de produzir o etanol para substituir 13,7% do petróleo consumido no mundo. Um estudo identificou que para isso, é necessário aumentar a produção da cana-de-açúcar no território brasileiro em áreas que não são de preservação ambiental ou destinadas à produção de alimentos.

Além disso, essa substituição pode ajudar a reduzir as emissões globais de dióxido de carbono (CO2) em até 5,6% em 2045 e impedir o aumento da temperatura do planeta, já que o etanol é menos poluente que a gasolina e outros combustíveis fósseis. Devido ao lançamento de gases tóxicos, a temperatura subiu 0,75 graus em comparação a Revolução Industrial e, se a poluição continuar, a expectativa que chegue em 2030, mais elevada em 1,5 graus.

Segundo o professor da Universidade de São Paulo (USP), que é um dos autores do artigo e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, Marcos Buvkeridge, a expansão dos canaviais brasileiros permite a redução da queima de combustíveis fosseis, conforme definido na COP-21, em Paris, em 2015. Buvkeridge destaca ainda que para reduzir a emissão de gases de efeito estufa deve-se parar com as queimadas na Floresta Amazônica e produzir mais etanol.

A pesquisa

Para estudar a expansão do cultivo de cana-de-açúcar no Brasil, os pesquisadores utilizaram um software desenvolvido na University of Illinois Urbana-Champaign que simula o crescimento de plantas como a cana-de-açúcar por hora e com base em parâmetros como composição do solo, temperatura, incidência de chuva e de seca. “O Brasil tem área, tecnologias de plantio em cana e desenvolvimento na produção de álcool de segunda geração. O potencial existe, mas faltam políticas governamentais. O Governo tem que querer fazer”, explica  o professor. Ele ainda pontua que para o mundo acreditar no poder do etanol brasileiro, é necessário desenvolver uma boa gestão interna do setor sucroenergético brasileiro e, com isso, conseguir a confiabilidade do exterior.

O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Feagri-Unicamp), do Instituto de Biociências (IB-USP) e da Escola de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq) da Universidade de São Paulo, em colaboração com colegas da University of Illinois Urbana-Champaign e da Iowa State University, dos Estados Unidos, além da University of Copenhagen, da Danish Energy Association e do National Center for Supercomputing Applications, da Dinamarca, e da Lancaster University, do Reino Unido. O estudo contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol. A pesquisa calculou que crescimento da área de plantio deve ser iniciado o quanto antes. “Temos pouco mais de uma década para nos adequar”, revela. O estudo simulou três diferentes cenários.

No primeiro, a expansão do cultivo dos canaviais é limitada às atuais áreas de pastagem que poderiam ser substituídas por lavouras de cana, apontadas pelo Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar (Zae Cana), lançado em 2009 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Já no segundo a produção considera o aumento na demanda de alimento nas próximas décadas devido ao aumento populacional. Neste cenário, os canaviais expandiriam além das áreas disponíveis para cultivo identificadas pelo Zae Cana, como também para aquelas que não serão necessárias para plantio de culturas alimentares e alimentos para animais e que poderiam ser disponibilizadas para lavouras de cana. O terceiro panorama é igual ao segundo, com a diferença de que inclui áreas de vegetação natural e seminatural que poderiam ser convertidas legalmente em lavouras de cana.

As análises indicaram que o cultivo de cana para produção de etanol poderia ser expandido para entre 37,5 milhões e 116 milhões de hectares nos três cenários. Dessa forma, o etanol obtido da cana poderia fornecer o equivalente a entre 3,63 milhões e 12,77 milhões de barris de petróleo bruto por dia em 2045 no cenário estimado de mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que se asseguraria a preservação de áreas de florestas e as destinadas para produção de alimentos. Com esses panoramas é possível diminuir entre 3,8% e 13,7% o consumo de petróleo bruto e entre 1,5% e 5,6% as emissões líquidas globais de CO2 no ano de 2045 em relação aos dados de 2014.

-Jornal da Bioenergia-WWW.CANALBIOENERGIA.COM.BR

No setor sucroenergético é comum considerar o etanol de milho como um concorrente direto do proveniente da cana-de-açúcar. Pesquisa em andamento conduzida pela Embrapa mostra o contrário. É possível obter benefícios e até aumentar a produtividade da cana-de-açúcar via uma técnica de consórcio com o milho. Ao mesmo tempo pode-se intensificar a produção de milho em áreas já ocupadas por cana solteira. Resultados de experimentos conduzidos na Embrapa Cerrados (Planaltina- DF) apontam para maior produtividade da cana-de-açúcar de ano consorciada com milho. A cana-de-açúcar solteira, plantada em março de 2016, produziu 114 TCH (Toneladas de Colmos por Hectare), enquanto que a produtividade da cana de ano consorciada, plantada em novembro de 2015, foi de 127 TCH. A produtividade do milho não foi afetada pelo consórcio.

Com esses dados preliminares pesquisadores das unidades Embrapa Cerrados, Milho e Sorgo (Sete Lagoas- MG), Meio Ambiente (Jaguariúna- SP) e Agropecuária Oeste (Dourados- MS) aprovaram, este ano, projeto de pesquisa no Portfólio Sucroalcooleiro Energético da Embrapa. Durante três anos serão feitas avaliações nas regiões de Goiás (Embrapa Cerrados), de São Paulo (Milho e Sorgo e Meio Ambiente) e Mato Grosso do Sul (Agropecuária Oeste). A equipe do projeto espera ter um protótipo da tecnologia implantado em escala de talhão no ano agrícola de 2019. “Modificações no atual sistema de produção de cana-de-açúcar são necessárias para que o sistema consorciado seja operacional em nível de talhão. Essa é uma questão importante e estamos atentos nas pesquisas”, afirma o pesquisador da Embrapa Cerrados Kleberson Souza.

Impacto maior na cana de ano – o consórcio com milho impacta mais na cana de ano, plantada no início do período chuvoso e, assim, denominada porque é colhida em um ano. Quando a cana-de-açúcar de ano é plantada, apesar da disponibilidade de água e temperaturas adequadas, a brotação e crescimento inicial da cultura são lentos. “Quando a cana de ano sai da fase inicial de brotação, e começa o crescimento exponencial, já terminou o período chuvoso. Nesse caso a cultura entra no período seco com elevada área foliar e grande demanda por água, reduzindo sua produtividade ao ser colhida ao final do período seco”, explica o pesquisador da Embrapa Cerrados João de Deus Santos Jr.

O prejuízo na produtividade alcança também as socas seguintes. A melhor estratégia para contornar esse problema é plantar a cana-de-açúcar de ano e meio, no final do período chuvoso entre os meses de janeiro a abril. Isto proporcionaria adequado teor de água no solo e temperatura para uma brotação rápida e baixa evapotranspiração da cultura durante os meses seguintes de déficit hídrico. Com o sistema radicular mais desenvolvido, a cultura da cana-de-açúcar terá no próximo período chuvoso a possibilidade de maximizar a utilização da água e da radiação solar. Embora a cana-de-açúcar de ano e meio seja a mais indicada, não é possível renovar os canaviais apenas no final do período chuvoso e, por isso, o sistema de plantio de cana-de-açúcar de ano é necessário para atingir a meta de renovação anual de canavial de cada usina, em maior ou menor grau. Outra consequência dos plantios de cana-de-açúcar no início do período chuvoso (cana de ano), considerando o espaçamento largo (1,5m) adotado no cultivo, é o de expor o solo a risco de erosão.

Aumento da produtividade – por meio do consórcio da cana-de-açúcar e milho é possível antecipar o plantio de cana-de-açúcar do final do período chuvoso (cana de ano e meio) para o período em que é plantada a cana de ano (início do período chuvoso), alterando, portanto, o ciclo de ano para de ano e meio. Quando consorciada com milho no início do período chuvoso, a cana-de-açúcar apresenta excelente brotação, porém, paralisa o crescimento devido à competição por luz. Somente retoma o perfilhamento e crescimento após a colheita do milho no final do período chuvoso. “A cultura é plantada antecipada, mas fica em modo de espera até o final do período chuvoso. Ou seja, a cana é plantada como se fosse cana de ano, mas se comportará como uma cana de ano e meio”, ressalta João de Deus Jr.

O produtor, como frisou o pesquisador, por uma questão de logística de plantio, pode optar por aumentar sua área de cana-de-açúcar de ano e meio intensificando os plantios de cana-de-açúcar de ano consorciada com milho, sem os problemas inerentes ao cultivo da cana-de-açúcar de ano. “Isso intensifica a produção de milho em áreas já ocupadas pelo plantio de cana-de-açúcar solteira, mitigando a questão de prioridade entre alimentos e energia no uso da terra”, complementa João de Deus. “Com a utilização da cultura intercalar do milho, o problema de erosão também é minimizado pois o solo é rapidamente coberto pela área foliar de ambas as culturas”, destaca.

Renovação de canaviais – de acordo com a pesquisadora Nilza Patrícia Ramos, da Embrapa Meio Ambiente, a renovação dos canaviais com a tecnologia da consorciação da cana-de-açúcar e milho é excelente opção para as usinas flex, nas quais o milho é utilizado para a produção de etanol. “Estudos da Embrapa Meio Ambiente evidenciam o bom desempenho econômico e ambiental das usinas flex”, afirma a pesquisadora.

Do ponto de vista ambiental, os resultados da integração da cana-de-açúcar e milho para as usinas flex não comprometem o desempenho do etanol produzido, tanto pela ótica do balanço energético quanto pela redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE).

As emissões de GEE evitadas podem chegar a 70% neste arranjo, enquanto o balanço energético atinge 6,9 MJ etanol hidratado/MJ energia fóssil, a depender da estrutura industrial usada. Nilza Ramos destacou que a realidade brasileira difere significativamente da norte-americana, onde as emissões evitadas, para etanol de milho, variam entre 19% e 48%. O grande diferencial das usinas flex de etanol de milho no Brasil é que a matriz energética é renovável, provenientes da queima do bagaço da cana-de-açúcar.

A utilização do milho nas usinas flex também gera um subproduto de maior valor agregado, conhecido como DDGS (sigla em inglês para grãos secos por destilação). Trata-se de um material com excelente propriedade para a suplementação de animais ruminantes. Dessa forma, o milho pode ser utilizado para alimentação animal em arranjos produtivos de confinamento bovino com plantio de milho em áreas de reforma de canavial. Intensificar de forma sustentável a produção de cana-de-açúcar e milho pode ser potencializada com o programa governamental RenovaBio 2030, que pretende aumentar a produção de biocombustíveis para atingir as metas de redução de emissão de poluentes, estabelecidas pela COP-21.

Foto: Allan Kardec Ramos


Embrapa

Nos últimos anos começaram a ser cultivadas no país variedades de cana obtidas a partir do cruzamento das espécies Saccharum officinarum e Saccharum spontaneum, denominadas cana-energia, que apresentam maior teor de fibras e robustez.

Desenvolvidas por empresas como a GranBio e a Vignis e por instituições como o Instituto Agronômico (IAC), essas “supercanas” são apontadas como a solução para aumentar a produtividade dos canaviais do país, produzir etanol de segunda geração (o etanol celulósico) e elevar a cogeração de energia.

Embora muito mais produtivas do que a cana convencional, essas variedades de cana-energia até então têm sido destinadas à produção de etanol e de energia elétrica em razão da dificuldade de cristalizar a sacarose de seu caldo para produção de açúcar de mesa – o produto mais rentável para as usinas.

Um grupo de pesquisadores do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) desenvolveu uma levedura a partir da levedura comercial Pedra 2 – uma das mais utilizadas no Brasil para produção de etanol –, que possibilitou superar esse obstáculo.

A patente da invenção foi depositada no início de junho, no Brasil, no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

“O último obstáculo que faltava superar para a adoção em larga escala da cana-energia era a cristalização de sua sacarose para produzir açúcar de mesa”, disse Maria Carolina de Barros Grassi, coordenadora associada da divisão molecular e responsável pelo programa Cana-Energia no CTBE, à Agência FAPESP.

De acordo com a pesquisadora, a proporção de frutose, glicose e sacarose na cana-energia é diferente da cana-de-açúcar tradicional. A “supercana” tem uma quantidade maior de glicose e frutose e menor concentração de sacarose no caldo em comparação com a cana convencional.

Além disso, enquanto na cana comum as moléculas de glicose e frutose estão unidas, formando as moléculas de sacarose, na cana-energia as moléculas de glicose e frutose estão separadas, o que impede a cristalização da sacarose para a fabricação do açúcar.

A solução encontrada pelos pesquisadores do CTBE foi fazer mutações de alguns genes de uma levedura comercial já utilizada na indústria sucroalcooleira para consumir apenas glicose e frutose.

“Diminuindo a quantidade de glicose e frutose na fermentação conseguimos que o caldo da cana-energia fosse composto apenas por sacarose pura. Com isso, conseguimos cristalizá-lo”, explicou Grassi.

Maior produção por hectare

Segundo estimativas dos pesquisadores, é possível produzir 35 quilos de açúcar por tonelada de cana-energia com a levedura modificada contra 71 quilos por tonelada da cana convencional.

Essa desvantagem comparativa é compensada com a produtividade da “supercana”, que pode ser três vezes maior que a da planta convencional.

Enquanto um hectare de cana convencional produz de 90 a 100 toneladas da planta com entre 13% e 14% de sacarose e açúcares totais, é possível produzir 180 toneladas de cana-energia na mesma área, com concentração de 8,5% de açúcar.

Feitas as contas pelos pesquisadores, em um hectare de cana convencional são produzidas 11,6 toneladas de açúcar; na mesma área, plantada com a “supercana”, seria possível produzir 15,3 toneladas de açúcar.

“Como a produtividade da cana-energia por hectare é maior em comparação com a cana convencional, consequentemente, a quantidade não só de açúcar, mas também de etanol e de energia produzida será maior em razão da maior quantidade de folhas e bagaço disponível para queima”, afirmou Grassi.

Ela exemplifica: com um hectare plantado de cana convencional uma usina produz 8,2 toneladas de açúcar, 1,7 mil litros de etanol (a partir do melaço) e 5,6 megawatt-hora (MWh) de energia elétrica excedente.

Já com um hectare plantado de cana-energia, uma usina produziria 8,1 toneladas de açúcar, 4,6 mil litros de etanol e 20 MWh de energia elétrica excedente.

No caso de uma destilaria autônoma – que não produz açúcar – poderiam ser produzidos 9,2 mil litros de etanol e 20 MWh com cana-energia contra até 6,8 mil litros de etanol e 5,6 MWh por hectare com cana convencional, estimam os pesquisadores.

“A cana-energia permite duplicar ou triplicar a área produtiva do país sem aumentar nenhum hectare, só com produtividade”, avaliou Gonçalo Pereira, diretor do CTBE e um dos inventores da tecnologia, juntamente com Paulo Eduardo Mantelatto, Jaciane Lutz Ienczak, Leandro Vieira dos Santos, Tassia Lopes Junqueira e Charles Dayan Farias de Jesus, todos eles pesquisadores do CTBE.

Atualmente há 25 mil hectares plantados com cana-energia no país por grupos como Zillor, Raízen, Odebrecht, Citrosuco e Caramuru. E empresas fabricantes de implementos, como a New Holland, têm trabalhado no desenvolvimento de máquinas para colher e plantar a “supercana” que, além da quantidade de folhas e bagaço, tem características distintas da cana convencional.

As raízes da cana-energia são mais densas do que as da cana comum, o que permite que a planta se fixe melhor no solo, absorva mais nutrientes, cresça mais rapidamente e estoque mais carbono.

Além disso, a “supercana” apresenta maior quantidade de colmos, que são mais finos do que os da cana convencional, o que permite maior perfilhamento e adensamento da planta e, portanto, maior resistência à seca e ao pisoteio das máquinas colheitadeiras.

“Nos últimos cinco anos diminuiu muito a produtividade da cana no Brasil devido à mecanização dos canaviais. A colheita mecanizada reduz a produtividade por causa do pisoteio das máquinas e com isso perde-se muito na hora da colheita e do plantio”, explicou Grassi.

“A cana-energia seria uma solução tanto para recuperar essa perda de produtividade causada pela mecanização, como também para ter uma cana mais robusta, com maior quantidade de biomassa para produção de etanol de segunda geração e outros produtos químicos, além de bioletricidade”, avaliou.

BBEST 2017

As tecnologias para melhoria dos processos de produção de etanol e de outros produtos a partir da biomassa serão um dos temas discutidos no Brazilian BioEnergy Science and Technology Conference (BBEST) 2017 – evento promovido pelo Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), que ocorrerá entre os dias 17 e 19 de outubro, em Campos do Jordão.

A programação científica do evento abrangerá questões relativas às matérias-primas – como agronomia, melhoramento genético e biotecnologia de plantas energéticas –, além de motores e outros dispositivos de conversão, sustentabilidade e impactos ambientais e socioeconômicos.

Paralelamente à parte científica do evento, a BBEST 2017 contará com outras atividades visando promover uma maior colaboração entre o setor privado e a academia, tais como apresentações das estratégias de pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D&I) de empresas convidadas e rodadas de discussão entre empresas e academia.

Para essas atividades serão convidadas grandes e médias empresas do setor de bioenergia, além de startups.

A programação do evento também inclui palestras de pesquisadores do Brasil e do exterior, além de sessão de pôsteres e prêmio aos melhores trabalhos científicos apresentados pelos participantes.

Mais informações sobre a BBEST 2017: http://bbest.org.br.

Agência Fapesp

A fumaça de veículos e das indústrias contribuem para a poluição do ar das cidades. E essas impurezas podem causam diversas doenças respiratórias e cardíacas na população. Um estudo apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) identificou que o uso de etanol reduz a concentração destas impurezas no ar.

A pesquisa foi desenvolvida na cidade de São Paulo (SP) entre os meses de janeiro e maio do ano de 2011 – um período marcado por oscilações no preço do etanol em relação à gasolina, motivadas por fatores macroeconômicos, como a variação do preço do açúcar no mercado internacional.

Durante o monitoramento foi percebido o aumento de 30% na concentração de partículas inferiores a 50 nanômetros nos períodos em que a gasolina estava com um preço melhor nas bombas dos postos em relação ao etanol.

Segundo o professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e coautor do artigo, Paulo Artaxo, o estudo associou o preço do etanol com a gasolina e mostrou mais uma vantagem do etanol. “O resultado reforça a necessidade de políticas públicas para estimular o uso de biocombustíveis, pois deixam claro que a população perde com saúde o dinheiro economizado na bomba quando se opta pela gasolina”, avalia Artaxo. As nanopartículas verificadas, que são 100 vezes menores que o diâmetro de um fio de cabelo, se comportam como gases e entram na respiração humana,  chegando  aos alvéolos pulmonares e, assim, atingindo a corrente sanguínea – atuando na troca entre oxigênio e gás carbônico no corpo.

A presença destes poluentes no corpo do homem causam impactos na saúde, como insuficiência cardíaca, inflamação do pulmão e aumento das doenças respiratórias, principalmente em idosos e crianças, que são os mais vulneráveis.

Fiscalização

Atualmente a concentração desse tipo de nanopartícula não é monitorada ou regulamentada por órgãos ambientais do Brasil ou de outras nações, como Estados Unidos e países da Europa. Por exemplo, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb)  monitora rotineiramente apenas as partículas sólidas de 10 mil nanômetros de diâmetro (PM10) e as de 2,5 mil nanômetros (PM 2,5) – além de outros poluentes gasosos como ozônio (O3), monóxido de carbono (CO) e dióxido de nitrogênio (NO2). “Essas nanopartículas menores não existem na natureza, a não ser devido a combustão de combustíveis fósseis, como a gasolina”, explica Artaxo.

Ainda segundo Paulo, Estados Unidos e a Europa já estudam, com base em pesquisas recentes, padrões de exposição para determinar que essas emissões sejam potencialmente prejudiciais à saúde e precisam ser regulamentadas. Em alguns estados norte-americanos, como a Califórnia, já existem leis que obrigam  a mistura de 20% a 30% de etanol na gasolina, o que permite a redução de material particulado ultrafino seja liberado.

No Brasil, ainda não existem discussões sobre o tema. Mas o aumento da mistura de etanol no diesel pode auxiliar na redução do número de poluentes no ar. “Todo o uso de biocombustível é positivo. No caso do diesel, essa mistura reduz a quantidade de fumaça preta expelida pelos automóveis”, pontua Artaxo que complementa que as cidades brasileiras deveriam investir mais no deslocamento da população em meios menos poluentes, como no transporte coletivo com uso de biocombustíveis, metrô, bicicletas e outros.

Metodologia

Os dados analisados na pesquisa foram coletados no topo de um prédio de dez andares na zona oeste de São Paulo. O local foi escolhido por estar relativamente distante de grandes avenidas, já que a poluição que o ser humano respira no dia a dia não é a que sai diretamente do cano de descarga dos veículos e sim partículas já processadas na atmosfera.

Canal-Jornal da Bioenergia

Plínio Nastari é presidente da Datagro, consultoria especializada em açúcar e etanol. Atuou como membro dos Comitês Técnicos do Conselho Interministerial do Brasil sobre Açúcar e Álcool, Comissão Nacional de Energia e Comissão de Reexame da Matriz de Energia.

Canal: O Brasil e o mundo passam por uma grave crise econômica. Como isso afeta o setor de bioenergia?

Plínio Nastari: O baixo crescimento econômico mundial reduz o consumo de energia e de combustíveis. Apesar da redução no consumo, o número de poços de exploração de petróleo e óleo de xisto nos EUA cresceu de 335 para 850 nos últimos 12 meses. Além disso, a Líbia anunciou o aumento da extração de óleo para até um milhão de b/d. Esses fatores ajudam a explicar a queda no preço do petróleo e da gasolina, que vem sendo transmitida via preço nas refinarias pela Petrobras. Na falta de um tributo compensatório, como a Cide ou o PIS/COFINS, sobre a gasolina e o diesel, a competitividade dos biocombustíveis e do etanol, em particular, tem sido afetada por esse movimento.

É, portanto, urgente a recuperação do valor da Cide e do PIS/COFINS sobre a gasolina, para que não seja ainda mais prejudicada a produção de etanol e os investimentos a ele relacionados.

Canal: Quais os cenários para atividade sucroenergética até o fim deste ano?

Plínio Nastari: Na safra 17/18, atualmente em operação, a Datagro prevê moagem de 605 milhões de toneladas de cana na Região Centro-Sul e de 42 milhões de toneladas na Região Norte-Nordeste. A produção de açúcar deve atingir de 36 a 38 milhões de toneladas no Centro-Sul e 2,9 milhões de toneladas no Norte-Nordeste, e a produção de etanol deve ser de 25,23 bilhões de litros no Centro-Sul e de 1,45 bilhão de litros no Norte-Nordeste.

Canal: O RenovaBio deve se tornar realidade? Quando ele poderá começar a trazer resultados positivos para o setor de biocombustíveis e biogás?

Plínio Nastari: As diretrizes principais do RenovaBio foram aprovadas por unanimidade na última reunião do Conselho Nacional De Politicas Energéticas (CNPE), e devem ser divulgadas em breve através de resolução CNPE a ser publicada no Diário Oficial da União. Minuta de medida legislativa já foi encaminhada pelo Ministério de Minas e Energia a consideração da Presidência da República, que deverá definir o seu encaminhamento através de projeto de lei ou de medida provisória.

Canal: Quais os principais pilares do RenovaBio e como eles influenciarão no setor de bioenergia?

Plínio Nastari: O RenovaBio tem como pilares principais: (i) a indução a ganhos de eficiência energética na produção e uso de biocombustíveis; (ii) o reconhecimento da capacidade de cada biocombustíveis contribuir para o atingimento da meta de descarbonização. Ao ser definida uma meta de descarbonização, será criado um farol sobre o tamanho do mercado de biocombustíveis à frente, que deverá induzir uma contratação mais estruturada e de longo prazo, com o possível desenvolvimento do mercado futuro de etanol, ainda incipiente pela falta de incentivos para que os agentes de mercado operem. Espera-se também que a troca de certificados de descarbonização leve à formação, em mercado, do valor do carbono a eles relacionado. O RenovaBio é uma regulação que organiza e confere previsibilidade para o longo prazo. Mas será preciso superar os desafios de curto prazo.

Canal: Que efeitos práticos a posição do presidente dos Estados Unidos em relação a cop 21 trará para a luta ambiental no mundo?

Plínio Nastari: A decisão do presidente Trump de retirar os EUA do Acordo do Clima de Paris ao invés de arrefecer, acirrou e incentivou o comprometimento de todos os demais signatários sobre a importância e a urgência de serem adotadas medidas para a mitigação de emissões de gases, inclusive por parte de governos estaduais e municipais dentro dos EUA, que não aceitaram a orientação da administração federal.

O efeito prático foi apenas o isolamento da administração Trump num tema considerado prioritário em termos globais.

No caso do Brasil, é uma oportunidade para que o presidente Temer reafirme o compromisso do país com as metas assumidas no acordo do clima e indique o setor de biocombustíveis como prioritário para o seu atingimento, não só pelo significativo e rápido impacto que propicia, mas fundamentalmente por ser um projeto de desenvolvimento econômico, com geração de emprego e renda no interior, fixando o homem no campo e valorizando a capacitação produtiva indiscutível que o Brasil possui na área agroindustrial e energética.

Canal: Como o senhor avalia o futuro do etanol celulósico?

Plínio Nastari: Terá um futuro brilhante, assim como a conversão da celulose em energia elétrica e em biogás e biometano. Cada região e cada situação fará com que uma dessas rotas de conversão seja a preferencial ou mais econômica.

Canal: A produção de etanol de milho no Brasil tem cenários futuros positivos?

Plínio Nastari: Sim. A produção de milho deve passar dos atuais 93 a 96 milhões de toneladas para cerca de 200 milhões de toneladas nos próximos anos. Isso significa que o preço do milho próximo às origens de produção continuará baixo, pelas ainda deficientes condições de logística que o país enfrenta. A conversão do milho em etanol e DDG, para alimentação animal, bovina, suína e avícola, reduz a pressão por logística, agrega valor e promove a cadeia de conversão do grão. Na safra 15/16 a produção de etanol de milho no Brasil foi de 144 milhões de litros. Em 16/17, foi de 235 milhões de litros. Em 17/18, a Datagro estima que será de 480 milhões de litros e, em dois anos, deve ser superior a 800 milhões de litros por ano.

Canal: Como está a produção de açúcar no cenário internacional e brasileiro? Os estoques vão influenciar de que forma os preços?

Plínio Nastari: Estamos prevendo para o ano comercial de 16/17, que encerra em 30 de setembro, um déficit de 5,71 milhões de toneladas. Para o ciclo de 17/18, que inicia em 1º de outubro, estamos prevendo um superávit de 590 mil toneladas. A relação estoque-consumo deve de manter no nível de 38%, o que é relativamente baixo, comparado com 47,4% registrados em 30 de setembro de 2015, e 42,5% em 30 de setembro de 2016.

No entanto, o mercado permanece pressionado por um trade flow superavitário em 17/18 e um mix de produção no curto prazo no Brasil, que está na primeira quinzena de junho de 2017 na Região Centro-Sul 8,6% mais açucareiro do que na mesma quinzena do ano passado.

Na Datagro, acreditamos que ultrapassado o período de entrega dos compromissos de exportação firmados a preços mais      elevados, os produtores irão direcionar o mix de produção ao etanol, pois o preço do açúcar de exportação em várias regiões do Brasil é menor do que o preço do etanol, mesmo com a competição de gasolina mais barata atualmente.

*Entrevista concedia à Ana Flávia Marinho, repórter do Canal-Jornal da Bioenergia

Os produtores rurais enfrentam sempre o desafio de deixar as pragas longe das lavouras. A tecnologia é uma aliada imprescindível, trazendo soluções para as pragas, que se mostram mais resistentes a cada safra. Há uma série de produtos, mas é preciso que o produtor esteja atento às suas necessidades para garantir que está utilizando um produto adequado e confiável, que seja específico para a praga que deseja combater.

O Brasil, por ser um país de clima tropical, permite o plantio de mais de um ciclo da cultura durante o ano. Em algumas áreas há o cultivo da soja, algodão e feijão no mesmo ano. “Não é difícil de ocorrer cultivos sucessivos na mesma área. O nosso clima é um cenário extremamente favorável para a proliferação das pragas e doenças  desde que haja alimento disponível”, avalia Sérgio Zambon, gerente sênior de Desenvolvimento de Mercado da Basf.

Rafael Pereira, gerente de desenvolvimento da UPL, Fernando Gilioli e Fernando Gadotti, desenvolvedores de mercado da UPL, advertem que tanto na sojiculura quanto no cultivo da cana-de-açúcar ou outras culturas, é preciso que o agricultor faça sempre o monitoramento da lavoura. “É de extrema importância que sejam aplicados somente produtos registrados para a cultura em questão. Além disso, é indispensável a implementação de boas práticas agrícolas, como o manejo integrado de pragas (MIP).”

Já Ernesto Benetti, gerente de Desenvolvimento de Produto da Adama , explica que o manejo adequado de pragas é importante para a proteção do potencial produtivo, pois a cana é uma cultura que fica exposta durante o ano todo e sujeita ao ataque de pragas por um longo período. “Dentre as pragas que têm aumentado sua importância, podemos citar os nematoides, que atacam a cana durante todo o ciclo. O controle é realizado, geralmente, apenas no momento do plantio (ou seja, eles podem se multiplicar por 5 a 6 anos até a próxima renovação do canavial). Além disso, o diagnóstico dos nematoides é difícil, pois demanda análises laboratoriais.“

De acordo com o assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Alexandro Alves, as pragas que têm mais chamado a atenção do produtor de cana são as brocas. As larvas da mariposa (Diatraeia saccharalis) abrem espaço para patógenos oportunistas como os fungos dos gêneros Fusarium e Colletotrichum, provocando perdas consideráveis na produtividade de sacarose. “Até então o controle biológico tem sido satisfatório. Outras pragas que sempre merecem a atenção são a cigarrinha das raízes e os besouros Migdolus e Sphenophorus. A broca gigante também tem aparecido em algumas localidades, bem como a lagarta Elamos, que tem sido bastante oportunista em casos de ocorrência de incêndio nos canaviais.” Além desses, o assessor técnico comenta que cupins e formigas cortadeiras também são alvos de monitoramento. “Na verdade, todas essas pragas merecem atenção, pois a variação de condições climáticas e certas práticas culturais podem provocar o aparecimento de determinada praga com mais ou menos intensidade, o alerta deve ser sempre constante.”

Com relação ao plantio de soja, o consultor técnico da Faeg, Cristiano Palavro, comenta que existe um conjunto bastante variado de pragas que atacam a cultura e suas intensidades variam de acordo com a região e o ano. “Entre os destaques podemos citar a presença do complexo de lagartas, em especial a lagarta falsa-medideira, que é uma espécie bastante consolidada em nossos cultivos de soja. Outras lagartas problemáticas são as Spodopteras, que por não serem controladas pela tecnologia de Soja BT disponível no mercado, têm aumentado suas populações. Entre as lagartas, há também preocupação com a Helicoverpa armigera, que apesar de sua intensidade ainda baixa em Goiás neste ano, é uma praga já amplamente dissipada e possui alto potencial de danos.” Palavro aponta ainda outra praga bastante tradicional nos cultivos de soja: o complexo de percevejos, que atacam a cultura da soja em sua fase reprodutiva, exigindo sempre a aplicação de manejo químico. Entre os destaques destes, há o crescente problema com a Mosca Branca, praga que tem aparecido com maior intensidade a cada a ano, atacando os cultivos de soja, feijão, tomate e hortaliças diversas. Por fim, são objetos de preocupação os Nematóides, pragas de solo que tem manejo bastante complicado, necessitando de rotação de culturas para a manutenção de seus baixos índices.

Entre as doenças da soja, o consultor comenta que o destaque ainda segue por conta da Ferrugem Asiática, que aparece comumente nas lavouras de soja, propiciada nos anos de maiores índices de umidade. A ferrugem exige o manejo preventivo e gera elevados custos aos produtores rurais. Entre as plantas daninhas, o principal destaque negativo é o capim amargoso, que se tornou uma planta resistente ao glifosato, exigindo manejo diferenciado nas lavouras onde está presente. “Porém, esta safra foi mais tranquila em relação a pragas e doenças, com raros relatos de perdas apontados pelos produtores”, diz Palavro.

Resistência

O ciclo evolutivo das pragas é muito dinâmico, o que pode promover resistências das pragas em determinadas condições. Isso é natural na corrida pela sobrevivência e perpetuação das espécies. “Não só na cana, mas em qualquer outra cultura, deve haver a preocupação de se fazer o uso de metodologias variadas e que promovam efetivamente a quebra do ciclo dessas pragas, dificultando a ocorrência de resistências. No geral, tem-se feito uso dessas metodologias, porém a pesquisa precisa de maiores avanços de modo a aumentar o leque de opções para que os produtores possam fazer uso. Da parte do produtor, a implantação do manejo integrado de pragas é fundamental”, diz Alexandro.

Na soja, as pragas e doenças apresentam grande nível de adaptação aos mecanismos de controle, exigindo estratégias cada vez mais bem elaboradas, combinando o uso de produtos químicos e biológicos com ferramentas de manejo cultural, como a rotação de culturas e a implementação de vazios sanitários. Segundo Palavro, “a produção é bastante intensiva e também o clima favorece a dispersão e adaptação das pragas. O uso de um mesmo mecanismo de ação repetidamente colabora no processo de seleção de resistência das pragas.”

A equipe da UPL explica que ainda não existem constatações oficiais de resistência para as pragas em cana-de-açúcar, mas observa-se um controle mais difícil a cada ano de cigarrinhas, por exemplo, assim como acontece em soja, para o controle de percevejos e da mosca branca, que tem requerido doses maiores dos mesmos inseticidas em relação aos anos anteriores.

Plantio

Com relação ao manejo da cana, todo o processo – desde o plantio, tratos culturais até a colheita – é importante. “Se tudo não for bem feito, de nada adianta ter a melhor colheitadeira e o melhor operador – tudo se perderá já nos trabalhos de base”, avalia Alexandro. Segundo ele, nesse trabalho de base o cuidado com agentes externos, pragas e doenças é fundamental para o sucesso da safra. “No caso da cana, o monitoramento é imprescindível. Não é opção, é obrigatório em todo ciclo da cultura.”

O mesmo cuidado deve ser tomado com relação à soja. O monitoramento constante da lavoura é ponto principal para um bom manejo de pragas. “Ao identificar a ação ou presença das pragas, o produtor deve definir a melhor forma de controle, seja o uso de produtos químicos ou biológicos.” Com relação a algumas pragas e doenças, deve haver controle preventivo, observando antecipadamente a incidência na região. “O manejo de praga inicia-se antes do cultivo, através do cumprimento das legislações fitossanitárias (vazio sanitário, calendário de plantio, controle de tigueras etc.) e também na definição de um modelo de rotação de culturas que diminua a incidência de inóculos das doenças e pragas”, orienta Palavro.

Sérgio Zambon destaca que é importante a utilização da solução certa em cada praga para um controle duradouro e eficiente. “Produtos mal utilizados, não recomendados, ou utilizados em não conformidade com as instruções do fabricante podem ser danosos à economia, saúde humana e meio ambiente. As pesquisas e aprovações de moléculas voltadas às soluções para pragas e doenças no campo são rigorosas e visam à segurança alimentar, saúde do produtor, meio ambiente e sanidade da lavoura.” Os usos inadequados dos produtos podem causar problemas como falhas de controle, desequilíbrio biológico, resistência das pragas e doenças aos ingredientes ativos do produto, resíduos tóxicos nos alimentos, além de ser um risco para sanidade e produtividade das lavouras. “O produtor deve utilizar soluções específicas registradas pelos órgãos regulatórios, seguir a orientação de um técnico habilitado (engenheiro agrônomo) e estar atento às instruções de uso presente no rótulo e bula do produto”, complementa.

Combate

Em qualquer cultura a diversificação de produtos de controle químico é crucial para evitar a ocorrência de resistência das pragas. Alexandro comenta que o problema relacionado a isso é que, em certos casos, o produtor não tem muitas opções devido à burocracia no registro de novos produtos pelos órgãos do governo, o que impede que o manejo de produtos químicos seja feito de maneira satisfatória a até mais econômica para o produtor.

No caso da soja, é importante o uso de produtos específicos visando a não eliminação dos inimigos naturais, que são organismos que contribuem para a manutenção de um equilíbrio biológico dentro das lavouras, diminuindo a necessidade de uso de outros mecanismos de manejo. Caso o produtor utilize produtos inadequados, o principal prejuízo será a ocorrência de resistências, além do controle ineficaz e, com a aplicação em maior número de vezes, maior custo operacional.

Além dos danos principais, que são aqueles diretos, com prejuízo na produtividade, há também os indiretos, que são o da qualidade das sementes. Outro tipo de prejuízo é aquele que diz respeito ao não controle de uma praga, já que essa pode se tornar um problema na região.

O produtor deve utilizar produtos com alta eficiência, dentro das dosagens recomendadas e fazer a rotação dos mecanismos de ação. Desta forma, evita o desenvolvimento mais intensivo de resistência das pragas. O uso de produtos inadequados favorece a eliminação de inimigos naturais e o desequilíbrio entre as espécies presentes nas lavouras, além da baixa efetividade de controle que faz com que as perdas sejam mais severas.

perdas

Ernesto Benetti ressalta que as perdas ocasionadas por pragas em cana-de-açúcar podem ser minimizadas com a realização de um levantamento adequado e com o controle onde for necessário, além da aplicação correta dos produtos, melhorando a cobertura do alvo.

Quanto à soja, a prevenção deve ocorrer antes do início da safra. “Com o uso cada vez mais intenso das áreas agricultáveis, praticamente não há um período de entressafra. Ou seja, as pragas deixaram de ser específicas de uma só cultura”, diz Benetti.

Canal-Jornal da Bioenergia

O processo de descompactação do solo é um desafio no Brasil. Uma alternativa que vem sendo estudada é o preparo profundo do solo, conhecido como sistema de aração profunda. Este sistema está tendo seu uso rapidamente ampliado em diversos cultivos (em especial, eucalipto e cana de açúcar). Entretanto, o sistema de preparo de solo profundos, com subsoladores e grades, ainda apresenta incertezas quanto à duração dos efeitos na descompactação e na dinâmica da água no solo.

A Embrapa Solos (Rio de Janeiro, RJ) em parceria com a Embrapa Amazônia Ocidental (Manaus, AM) e a Usina Jayoro (Presidente Figueiredo-AM), realiza estudos onde este sistema de aração profunda está sendo monitorado de forma intensiva. “Estes dados permitirão avançar no conhecimento dos efeitos deste sistema de manejo para os Latossolos Amarelos muito argilosos da Amazônia Central, além de contribuir na discussão mais geral do uso de forma de preparo do solo em canaviais”, conta o pesquisador Wenceslau Teixeira, da Embrapa Solos.

Neste estudo estão sendo monitorados canaviais onde foi feito o preparo do solo com aração profunda em comparação com canaviais onde foi feito o preparo convencional com grade aradora. A avaliação da resistência à penetração é feita periodicamente nos dois sistemas e os dados são ajustados para as diferenças causadas, não pela compactação em si, mas pela variação da umidade do solo. Está sendo feito o monitoramento da dinâmica da água no solo nos dois sistemas de preparo da terra, com equipamentos automatizados de coleta de parâmetros meteorológicos e da umidade do solo em diferentes profundidades.

São feita também avaliações do sistema radicular e da produtividade e longevidade dos canaviais. Os dados iniciais mostraram uma maior densidade e aprofundamento das raízes nas áreas com preparo profundo do solo, uma menor resistência à penetração e maior infiltração de água nas áreas descompactadas. A continuidade do monitoramento permitirá verificar a duração do efeito da descompactação, seu efeito na dinâmica da água nos talhões e na produtividade e longevidade dos canaviais.

Este estudo estará concluído em três anos.

 

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