A volta do plantio manual da cana-de-açúcar

É comum ver grandes máquinas nos canaviais brasileiros, seja no período de colheita, seja durante o plantio ou na renovação. Mas este cenário está mudando em algumas usinas na época de plantio. As usinas estão deixando de lado o plantio por máquinas, voltando no tempo e optando pelo manual. O motivo do regresso é a busca pela melhor qualidade de brotação das sementes ou mudas, que eleva a produtividade e a qualidade da plantação.

A Diana Bioenergia, em Catanduva (SP), é uma das usinas que está apostando no plantio manual. Em 2018 a empresa do interior paulista começou a conciliar o plantio mecanizado com o manual. No ano passado, 30% da área desenvolveu o plantio manual, já este ano subiu para 85%. E, no ano que vem 100% do plantio será manual nas terras próprias. Assim, em 2020, a estimativa é que os três mil hectares da usina usem apenas trabalhadores rurais na plantação. Segundo Lucas Kellner, gerente agrícola da Diana Bioenergia, na última safra a usina colheu 1.228.000 toneladas de cana, mas o resultado do plantio manual será maior no próximo ano. “Em 2020 teremos uma melhor produção que será o reflexo do forte plantio manual que tivemos este ano”, pontua. Atualmente, a área de plantio da Diana Bioenergia é de 23 mil hectares – somando fornecedores, arrendamento e terras próprias. Exemplo: A CRV Industrial, localizada em Rubiataba (GO), já tem 100% do plantio dos canaviais de forma manual. A usina conta com 3.500 hectares de plantação. Segundo o superintendente agrícola, Joaquim Malheiros, a empresa colocou na balança e, há quatro anos, só faz o plantio manual. “Resistimos ao mecanizado e optamos por contratar mais pessoas e ter um plantio de mais qualidade”, revela.

Vantagens
Tanto no interior paulista como no território goiano, as usinas optaram pelo plantio manual devido a confiabilidade na brotação e na redução no uso de sementes e mudas. Para se mensurar, na Diana Bioenergia são usadas dez toneladas de mudas por hectare no plantio manual já no mecanizado sobe para 14 toneladas.
“Com os trabalhadores no campo conseguimos uma cana com melhor brotação, com mais vigor e maior resistência à seca e a pragas. Além de ter mais plantas por hectare já que reduzimos a quantidade de falhas do plantio”, revela Malheiros.

Outra vantagem do retorno do plantio manual é a possibilidade de trabalhar em áreas com relevo mais acidentado. “No final, o custo do plantio mecanizado e manual se equiparam, mas devido a maior qualidade e produtividade optamos pelo segundo”, pontua o superintendente. Kellner afirma que se observou um aumento de 8% de produtividade (TCH) e um acréscimo de 50% em relação à cana que era utilizada para muda. Esse 50% não era transformado em produto. “Com o plantio manual foi observado o ganho que tivemos com a redução de muda, redução de falhas e, consequentemente, aumento de produtividade e assim, a mudança se tornou viável”, relata. Mas ele revela que o plantio mecanizado tem suas vantagens, mas que não superam o manual. De acordo com o profissional, um dos benefícios é em relação ao tempo que o sulco de plantio fica aberto em comparação ao feito artesanalmente. “No mecanizado o sulco é aberto, coloca-se a muda e é fechado simultaneamente, já no manual o sulco pode ficar aberto até 24 horas, com essa situação pode se perder umidade do solo”, expõe.

Mão de obra
Além de aumentar a quantidade de cana moída com uma qualidade melhor da germinação da cana e densidade populacional, outra grande vantagem é a geração de empregos. Em Rubiataba, 400 pessoas da região trabalham no plantio direto entre os meses de janeiro e abril. Após esse período uma parte da mão de obra é aproveitada no corte manual – na unidade cerca de 10% não é mecanizado – ou na irrigação. “Assim, desenvolvemos um trabalho de cunho social e conseguimos manter os postos de trabalho durante o ano inteiro”, afirma Joaquim. No interior paulista 220 pessoas realizam o plantio.

Tradição
Outra vantagem do método antigo é a possibilidade de fazer Meiose (Método Interrotacional Ocorrendo Simultaneamente). Ambas as usinas têm adotado essa prática a fim de acelerar a adoção de novas variedades mais produtivas e modernas, resultando no aumento de produtividade. “Este método contribui ainda mais para a redução do gasto de mudas e melhora da qualidade do nosso plantio”, explica Kellner. Malheiros afirma que atualmente 30% das unidades sucroenergéticas da região Centro-Sul do país realizam este processo que é totalmente manual. Em resumo o método faz o plantio de uma linha de cana e, após um período entre oito a 12 meses, a linha é multiplicada. Canal-Jornal da Bioenergia.

Fazer uma manutenção das usinas de forma adequada é garantir reduções nos custos da empresa. Se por um lado os gastos com reparos podem ser muito altos, prevenir e monitorar os equipamentos das usinas pode ser uma boa estratégia de identificar problemas antes que seja tarde demais. Óleo, termografia, análise de vibração e inspeções sensitivas são alguns dos pontos a serem observados.

Se a usina trabalha com uma entressafra menor, e além da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar também produz o biocombustível com milho e sorgo, o distanciamento entre as safras praticamente deixa de existir. Dessa forma, programar a manutenção corretiva e preventiva é ainda mais importante. Isto porque, os equipamentos precisam estar mais confiáveis no restante do ano.

Diretor da Ajel, que presta serviços de manutenção a usinas, Arley Pereira afirma que o uso da preditiva é essencial para um bom planejamento das manutenções. Depois desta etapa, as empresas passam a ter ciência de quais equipamentos realmente necessitam passar por uma manutenção corretiva e preventiva. Esta é uma boa forma de trabalhar de maneira assertiva e diminuir o custo. “Uma boa manutenção na entressafra evita paradas inesperadas que, durante o período de trabalho intenso, podem causar prejuízos incalculáveis”, explica.

Na Usina Rio Claro, localizada em Caçu, a 335 km de Goiânia, a forma encontrada para reduzir os custos foi manter uma equipe interna de controle e também de preditiva e preventiva. No total, 194 funcionários atuam na parte industrial (operação e manutenção). Hoje, 80% do trabalho é realizado internamente e apenas 20% é contratado de uma empresa terceirizada.

“Estou na empresa há seis anos e, antes desse cenário tínhamos 60% da manutenção feita de forma interna e 40% ficava a cargo das empresas contratadas. O resultado desta modificação que tivemos foi uma economia de praticamente 20% nos custos. Para isso, o trabalho é quase que diário e temos um sistema de monitoramento que auxilia esta ação”, explica Paulo Sérgio, gerente de manutenção da Usina Rio Claro, que pertence ao grupo Atvos.

Paulo explica que a usina é uma das seis unidades do grupo. Nesta, apenas a cana-de-açúcar é processada. Desta forma, o período de entressafra vai de quatro a cinco meses, começando sempre no final de outubro e seguindo até março ou abril. O começo da nova safra depende do período chuvoso e, desta forma, só é possível saber de fato quando retornam os trabalhos, em meados de fevereiro. Este é o período do ano em que as empresas faturam apenas 5% do total equivalente ao ano e, por esse motivo, a revisão do maquinário é mais propensa. Isto também significa dizer que, se existir atraso na hora de colher, o tempo de atuação da usina será reduzido.

“Com a ação da equipe de preditiva, sabemos exatamente há quanto tempo cada máquina passou por manutenção e o que mede uma planta industrial é a disponibilidade da tela. A nossa meta de disponibilidade era de 97,5% e estamos entregando 99,5%. Esse resultado é fruto de planejamento e muito trabalho. Fazemos uma gestão de rotina e sabemos a condição da nossa empresa. Trabalhamos com liberação de motores, bombas, análise de olho”, exemplifica. Com produção diária de 1800 m3 de etanol em duas destilarias, a safra na usina está encerrando com 275 milhões de litros produzidos além de 300 gigawatts de energia.

Arley Pereira, explica que o grupo Ajel disponibiliza equipes qualificadas para manutenção preventivas, preditivas e corretivas in loco ou na assistência técnica da empresa. Ele ressalta que o principal desafio hoje é viabilizar uma boa estrutura de pessoas e equipamentos compatível com o recurso das indústrias.

Cigarrinha-de-raiz é uma praga que assola os canaviais reduzindo a produtividade em até 80%. Ela é encontrada, praticamente, em todas as regiões canavieiras do Brasil. Este inseto começou a se tornar relevante após o início da mecanização do manejo nos canaviais, com a ausência das queimadas.

Com as máquinas, há o acúmulo de palha que contribuiu para manter a umidade do solo, favorecendo o aumento da população da cigarrinha. A queimada na cana-de-açúcar era uma forma de controle cultural, porém essa tática ainda é realizada apenas em regiões nas quais a queima ainda é permitida, contribuindo para a destruição das formas biológicas da cigarrinha-das-raízes, especialmente dos ovos. “Com a colheita mecanizada, a cobertura vegetal deixada ao solo favorece o ambiente para o desenvolvimento dessa praga”, explica Ana Paula Bonilha, especialista de Desenvolvimento de Produto e Mercado da Ourofino Agrociência.

Mas outros fatores também são associados à ocorrência da praga, como o histórico populacional da área, o manejo realizado,  as variedades de cana-de-açúcar mais suscetíveis e a época de corte do canavial.

Segundo o analista técnico do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Alexandro Alves, a mudança no manejo permitiu a proliferação da cigarrinha. “O inseto produz ovos, que se transformam em ninfas. Estas se alimentam das seivas das raízes e das folhas dos canaviais. Além disso, injetam toxinas na planta ocasionando a perda de produtividade”, explica.

O ciclo do inseto inicia no período chuvoso. “Estamos no momento crucial. Em Goiás, por exemplo, o verão é um momento de atenção, pois temos a palhada no canavial, além de uma amplitude térmica alta e umidade relativa o ar também elevada. Todos são fatores e condições favoráveis que propiciam o desenvolvimento do inseto”, revela.

O ciclo

A primeira geração do inseto, apesar de pequena, possui a capacidade de desenvolvimento até a fase adulta, que fará a postura da segunda geração, já em maior quantidade. O pesquisador de Inseticidas da Ourofino Agrociência, Helvio Campoy Costa Junior, complementa que no período chuvoso, podem ser observados os altos níveis populacionais em campo, principalmente na segunda e terceira geração da praga. “Sendo assim, é extremamente importante realizar o controle no início do aparecimento de adultos e ninfas provenientes de ovos sobreviventes da safra anterior (Diapausa)”, explica.

Identificação

A infestação da cigarrinha-da-raiz é identificada pela presença de uma espuma esbranquiçada semelhante à espuma de sabão na planta. Para um controle eficaz, é imprescindível realizar o monitoramento, que deve ser realizado após 15 dias do início do período chuvoso. “Detectar a primeira geração permite um controle mais eficiente e, por isso, ele deve ser mantido durante todo o período de infestação – ou seja, entre os meses de março e abril”, orienta Ana Paula Bonilha.

Para identificar a praga nos canaviais e acompanhar o desenvolvimento populacional, o indicado é que o agricultor realize amostragens nos talhões, em seis pontos por hectare, em dois metros de sulco por ponto. “Quanto maior o número de pontos amostrados, melhor será a representatividade da amostragem frente à população de cigarrinhas no canavial. Essa amostragem é realizada contando o número de formas biológicas – adultos e ninfas – que estão localizadas sob a palha na região das touceiras, sendo assim, é necessário afastar a camada de palha para observar os insetos”, explica Bonilha.

Os canaviais novos sofrem mais com o ataque dessa praga, por isso devem ser priorizados no monitoramento, bem como áreas com histórico de alta infestação de cigarrinhas.

O ataque das cigarrinhas deixa as plantas mais suscetíveis ao acesso de outros organismos. Um bom exemplo são os fungos fitopatogênicos que ocasionam prejuízos diretos – no desenvolvimento da planta – ou indiretos, que comprometem a qualidade da matéria-prima, como a podridão vermelha.

Proteção

Atualmente, os principais métodos utilizados para o manejo de cigarrinha-das-raízes na cultura da cana-de-açúcar são: controle químico, controle cultural, variedades resistentes e controle biológico. Não existe um melhor método, a seleção entre controle químico e biológico está relacionada com o nível de infestação do inseto na área, sendo que, por diversas vezes, há a necessidade de associação dos diferentes métodos de controle. “É importante salientar que ambos os métodos podem ser utilizados em programas de manejo integrado de pragas”, explica Helvio Campoy Costa Junior, Pesquisador de Inseticidas da Ourofino Agrociência.

Alexandro complementa que o controle biológico é realizado com a pulverização do fungo metarhizium, de preferência em ambiente favorável, que é na época chuvosa. “Após este primeiro controle, é importante fazer  novamente uma nova contagem, para identificar os adultos e ninfas e verificar se é necessário outra ação, como a entrada de químicos.

Mas, no entanto, a utilização de cada método demanda um planejamento prévio para garantir o sucesso da ação. “Por exemplo, podemos utilizar inseticidas químicos para controle de adultos e ninfas da praga, retirada ou afastamento da palha, expondo a linha da cana à maior incidência de radiação solar e diminuindo a umidade do solo, o que resulta em condições menos favoráveis ao desenvolvimento de cigarrinhas, variedades que não apresentam grande suscetibilidade ao ataque da praga e, por fim, agentes de controle microbiano como os fungos entomopatogênicos.”, ressalta o pesquisador de Inseticidas. Porém, todos os métodos citados anteriormente são possíveis de serem empregados de maneira integrada e sustentável, mantendo a praga em baixos níveis populacionais.

Canal-Jornal da Bioenergia

A capacidade da cana-de-açúcar de acumular altos níveis de biomassa e de sacarose no colmo ao longo de seu desenvolvimento tornou a planta a mais usada para obter açúcar e a segunda maior matéria-prima para produção de etanol no mundo.

Já se sabia que a acumulação de biomassa e de sacarose pela planta está relacionada ao uso de metabólitos, como carboidratos não estruturais (NSCs), produzidos pelo processo de fotossíntese durante o dia. Não estava claro como as condições ambientais e os estágios de desenvolvimento da cana influenciam a produção de NSCs e afetam o crescimento da planta.

Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), publicado na revista Functional Plant Biology, ajudou a esclarecer essa questão.

Os resultados do estudo, feito no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol – um dos INCTs apoiados pela FAPESP em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Estado de São Paulo –, podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias voltadas a aumentar a produção de biomassa pela cana.

“Descrevemos, pela primeira vez, o comportamento diuturno da cana, no campo, durante todo um ciclo de desenvolvimento. Com isso, fizemos algumas descobertas interessantes e estratégicas na direção do nosso objetivo de produzir uma ‘supercana’ [capaz de acumular biomassa e altos teores de fibra rapidamente]”, disse Marcos Buckeridge, professor do IB-USP e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores acompanharam um ciclo completo de crescimento da cana, de 12 meses, em campo, 24 horas por dia, em uma fazenda em Piracicaba, no interior de São Paulo. Eles analisaram parâmetros, como as trocas gasosas pelas folhas e a acumulação de NSCs durante diferentes estágios de desenvolvimento da planta.

Os resultados das análises dos dados indicaram que a cana apresenta uma transição entre três e seis meses de desenvolvimento, em que passa de um “modo” de crescimento para outro de armazenamento.

Até os três a quatro meses de desenvolvimento, em que são registradas as maiores taxas de fotossíntese, a cana forma uma copa operacional, com um determinado número de folhas. Após atingir esse estágio e até os seis meses de desenvolvimento, a cada folha produzida pela planta outra folha – geralmente da parte mais abaixo da copa – começa a envelhecer. Dessa forma, a cana mantém um determinado número de folhas.

A partir dos seis meses, a planta começa a armazenar sacarose, no colmo e nas raízes, e amido nas folhas até os 12 meses. Nessa fase, a cana-de-açúcar praticamente deixa de fazer fotossíntese e está pronta para ser cortada e usada para produção de açúcar e etanol.

“Sabíamos que a cana acumula açúcares durante a fase de desenvolvimento de seis a 12 meses, mas constatamos, agora, que isso acontece ao mesmo tempo em que diminui gradativamente a fotossíntese nas folhas, onde há um acúmulo muito grande de amido aos 12 meses”, disse Amanda Pereira de Souza, que fez pós-doutorado no IB-USP com Bolsa da FAPESP e é primeira autora do estudo.

Os pesquisadores também observaram que os açúcares que ficam guardados na raiz da cana cortada e mantida no solo após a soca para rebrotar e iniciar um novo ciclo ajudam a regenerar a parte inicial do desenvolvimento da nova planta.

Mais sacarose e amido

Outra descoberta foi a de que as folhas da cana abrem seus estômatos (estruturas celulares que têm a função de realizar trocas gasosas entre a planta e o meio ambiente) para absorver água durante a madrugada, em que a umidade é mais alta, entre seis e nove meses de desenvolvimento, quando a planta passa por um período de seca e faz menos fotossíntese.

“Achamos que isso pode estar relacionado com um mecanismo fisiológico de proteção da planta contra a seca”, disse Buckeridge.

Na avaliação do pesquisador, a detecção do ponto de transição da cana entre três e seis meses de desenvolvimento, em que passa da fase de crescimento para a de armazenamento de sacarose, abre a perspectiva de ativar e desativar genes que determinam o processo de acúmulo de açúcares em diferentes partes da planta.

“O entendimento de como cada órgão controla o acúmulo de açúcares na mesma planta abre caminho para o desenvolvimento tanto de uma cana com mais sacarose nas folhas ou uma cana com mais amido no colmo. Ambas as estratégias podem ser interessantes em diferentes situações”, disse Buckeridge.

Já a descoberta de que as folhas da cana abrem seus estômatos para absorver água na madrugada durante o período de seca pode possibilitar a identificação de variedades mais tolerantes ao estresse hídrico.

“Isso abre um leque de novas oportunidades para entendermos o efeito da seca sobre a cana, inclusive aspectos relacionados às suas respostas às mudanças climáticas”, afirmou.

O artigo Diurnal variation in gas exchange and nonstructural carbohydrates throughout sugarcane development (doi: 10.1071/FP17268), de Amanda P. De Souza, Adriana Grandis, Bruna C. Arenque-Musa e Marcos S. Buckeridge, pode ser lido na revista Functional Plant Biology em www.publish.csiro.au/FP/FP17268. Agência FAPESP –

Goiás é o segundo maior produtor de cana-de-açúcar e seus derivados açúcar e etanol no Brasil. A cultura é extremamente representativa em termos econômicos para o Estado: na safra 2018/19, a produção deve alcançar aproximadamente 71 milhões de toneladas. A cana-de-açúcar ocupa mais de um milhão de hectares de área plantada, é a segunda cultura agrícola mais importante considerando-se o Valor Bruto da Produção (VBP) e emprega mais de 100 mil pessoas de forma direta.

Como a demanda por profissionais qualificados é alta e os produtores e trabalhadores precisam se manter constantemente atualizados, o EAD Senar Goiás lança o curso Cultivo e Produção de Cana-de-açúcar.

A formação visa desenvolver alunos quanto às mais modernas práticas de cultivo, com vistas ao aumento de produtividade e rentabilidade na lavoura, aliadas à redução do impacto ambiental. O curso é totalmente online, gratuito, tem carga horária de 20 horas e o aluno terá até um mês para terminar seus estudos. Ao final, receberá um certificado, que poderá ser utilizado como comprovação de atividade complementar, caso o aluno seja universitário.

Atendendo a pedidos

O novo curso é o segundo do Programa Produção Vegetal, lançado no primeiro bimestre de 2018. O primeiro curso, Cultivo e Produção de Grãos é um sucesso e já recebeu 3 mil alunos.

Para José Mário, presidente do Sistema Faeg Senar, as expectativas são altíssimas com o novo curso: “Recebemos muitos pedidos para lançar uma capacitação voltada à cana-de-açúcar. Goiás já é uma potência na cultura e tem tudo para crescer ainda mais. E não tem jeito, é preciso investir em conhecimento para que nosso setor alcance resultados cada vez melhores”, afirma.

Oportunidade

O curso é aberto a todos os moradores de Goiás que tenham interesse em se qualificar na área. É destinado especialmente a produtores rurais e seus familiares, administradores de propriedades, trabalhadores rurais e estudantes de cursos técnicos e universitários.

Para quem atua no setor do agronegócio, o curso representa a oportunidade de melhorar o currículo e conquistar uma das vagas que a lavoura da cana-de-açúcar oferece. Este é o caso de Gabriel Jeyme Silva Rocha, de 24 anos, morador de Goiatuba. Engenheiro agrônomo recém-formado, ele foi um dos primeiros pré-inscritos da primeira turma. “Recentemente participei de um processo seletivo para trainee de uma usina e fazenda da região e não fui chamado. Acredito que por não ter nenhuma experiência com cana-de-açúcar. Assim, quando vi  abertura do curso, pensei que é a oportunidade que preciso para agregar conhecimento e poder disputar novas vagas”, conta Gabriel.

Este será o quinto curso de Gabriel no EAD Senar Goiás. Ele já fez outros na área de gestão rural, agricultura de precisão e o de Cultivo e Produção de Grãos e diz sempre acompanhar as notícias, pois aprova o formato e qualidade dos materiais de ensino.

Sobre o setor

A cultura da cana-de-açúcar é forte no Centro-Oeste e no Estado de Goiás. Apesar do momento de crise econômica no Brasil e no mundo, a cultura se manteve estável e tem excelentes perspectivas para a próxima safra.

Joaquim Sardinha, presidente da Comissão de Cana-de-Açúcar e Bioenergia da Faeg e diretor da Aprocana explica que as previsões são boas para todo o setor. Ou seja, produtores devem ter melhoria na rentabilidade e profissionais devem continuar com um mercado de trabalho aquecido.

“São vários os fatores altistas. A cultura da cana-de-açúcar tem evoluído em termos de produção e produtividade em Goiás; os fatores agroclimáticos são positivos, com boas chuvas e recuperação dos canaviais; a demanda por etanol está alta pela competitividade com a gasolina e o mercado futuro internacional do açúcar já aponta preços maiores na Bolsa de Nova York, com a redução dos estoques globais da commodity”, afirma Sardinha.

Cana-de-açúcar em Goiás

• Produção na safra 2017/18: 70,62 milhões de toneladas

• Produção na safra 2018/19 (previsão): 70,95 milhões de toneladas

• Área plantada: 1,1 milhão de hectares -> corresponde a 21,5% das áreas agricultáveis do Estado, desconsiderando áreas ocupadas por pastagens

• 100 mil empregos diretos e 300 mil indiretos

• A produção de Goiás corresponde a 51% da produção do Centro-Oeste e 11% da produção brasileira.

• No ranking brasileiro, os maiores Estados produtores são (safra 2018/19):

• São Paulo, com produção estimada de 341 milhões de toneladas

• Goiás, com produção estimada de 71 milhões de toneladas

• Minas Gerais, com produção estimada de 67 milhões de toneladas

• 36 usinas em operação e 39 instaladas

• Ranking das cidades produtoras:

1. Quirinópolis

2. Mineiros

3. Goiatuba

4. Itumbiara

5. Rio Verde

Dados: Conab/IBGE/SIFAEG

Serviço

Curso Cultivo e Produção de Cana-de-Açúcar

Curta duração, online, grátis e com certificado

Matrículas e mais informações em: https:/goo.gl/2yrtkt.

Unica

A influência do clima na produtividade de usinas de cana-de-açúcar e biodiesel está despertando nos empresários a necessidade de informação. Mas, transformar dados em ações ainda é uma realidade longe do ideal e aí não basta medir a quantidade da chuva, da radiação solar ou a temperatura do ar. É preciso saber quais decisões tomar a partir destes dados para garantir além da produtividade, maior retorno financeiro.

Fábio Marin, professor do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo, explica que o clima ainda é um dos fatores menos estudados do campo da bioenergia. Apesar disso, o professor afirma que grandes e pequenos grupos estão cada vez mais conscientes desta importância. Para ele, a dificuldade de lidar com o tema se dá pelo fato de que a maioria dos cursos de Ciências Agrárias não dá a atenção merecida para esta linha de formação.

“Em qualquer setor há uma diferença entre dados e informação. A maioria das usinas possui os dados mas ainda possuem uma grande dificuldade em avançar no plano de ações. É essa análise que resula em redução de custos e/ou aumento de receita”, afirma o professor. Ele diz ainda que, normalmente, as usinas contam com estações meteorológicas instaladas internamente, mas que além do serviço público, muitas empresas já estão disponibilizando aluguel de estações e armazenamento de dados meteorlógicos na nuvem. “Já contamos com alta qualidade na prestação de serviço no campo da agrometereologia”, completa.

USP oferece monitoramento

A Esalq/USP possui um serviço de de extensão denominado Tempocampo. Idealizado e coordenado pelo professor Fábio Marin, o sistema monitora mais de 800 mil hectares de cana em todo o Centro-Sul brasileiro, os 200 municipios maiores produtores de milho do Brasil e toda a soja do Mato Grosso, Paraná e do Matopiba. Entre os serviços prestados estão:  monitoramento e previsão do tempo; previsão de safras; risco de quebra de produtividade em função da época de semeadura, além da ocorrência de doenças e pragas. O serviço opera na universidade desde 2016, mas foi concebido e testato em 2010.

Suporte do Inmet no país todo

Meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Danielle Ferreira explica que, apesar de o instituto não fornecer recomendações de forma direta aos tomadores de decisão, dispõe, de uma ferramenta de apoio chamado Sistema de Suporte à Decisão na Agropecuária (Sisdagro). O sistema utiliza informações registradas em uma rede de estações meteorológicas do Inmet, distribuídas em todo o território nacional. “Também oferecemos dados obtidos por modelo de previsão numérica do tempo referentes às variáveis: temperatura, precipitação, umidade relativa do ar, velocidade e direção do vento e radiação solar.

Por meio destes dados meteorológicos, o sistema pode monitorar as condições vigentes de uma determinada cultura até a data da consulta ao sistema, bem como condições previstas para os próximos cinco dias. Também é posssível quantificar a perda de produtividade da cultura em porcentagem, penalizando-a em função somente da deficiência hídrica, ou seja, utiliza uma relação matemática que relaciona a queda relativa da produtividade de uma cultura com o déficit relativo de evapotranspiração.

A meteorologista também aponta outra ferramenta importante para o setor agrícola: previsão climática sazonal do Inmet. “De acordo com o comportamento das chuvas e temperatura, as decisões sobre a época de plantio e colheita, tipos de manejo mais apropriados, entre outros, devem ser feitos de acordo com o cenário climático para três meses à frente, de modo que a referida cultura não seja prejudicada por condições climáticas adversas”, pontua.

Ela finaliza dizendo que, de posse destes resultados, os usuários em geral (produtores e extensionistas rurais, técnicos agropecuários e agrônomos, pesquisadores, etc) podem tomar sua decisão, levando em consideração que os fatores climáticos são preponderantes para o sucesso da produtividade agrícola.

Coeficiente de Produtividade Climática é indicador importante

O Coeficiente de Produtividade Climática (CPC) é um indicador que foi desenvolvido pela USP e é calculado pela razão da produtividade de tonelada de cana por hectare, por exemplo da safra atual e a produtividade da safra anterior. A variação normal é de 0,7 a 1,3. Se o CPC for maior que a unidade, o sistema indica melhora no clima da safra atual comparada à anterior.

Por outro lado, se o CPC fica abaixo de um, o resultado é negativo e a tendência é de que o clima da safra atual resulte em condições de produtividade inferiores à safra passada. A USP exemplifica: “se o CPC para uma dada localidade foi de 1,02, o modo correto de interpretar este valor é de que clima dessa safra elevará a produtividade em 2% em relação à safra passada. Se o CPC é igual a unidade, a indicação do Sistema Tempocampo é de que o clima da safra atual vem resultando no mesmo nível de produtividade da safra anterior”.

Efeito estufa precisa ser considerado

O país já conta hoje com tecnologia que monitora de perto o aumento no buraco da camada de ozônio e o efeito estufa dificulta, e muito, a produção agrícola. Entre os fatores que contribuem para este aumento: poluição crescente do ar, desmatamento e uso descontrolado de combustíveis fósseis. O ecossistema do planeta amarga prejuízos e o resultado se reflete, claro na agricultura. O cuidado então é necessário já que, com alta incidência de raios solares a produção agrícola pode se comprometer e ter como consequência, escassez de alimentos.

Canal-Jornal da Bioenergia

Dezembro foi marcado por chuvas abaixo da média nas principais regiões canavieiras do Centro-Sul. De acordo com o Índice Relativo de Chuva (IRC), calculado pela DATAGRO Consultoria, o índice de precipitações na região foi de 119,3 mm, 46,6% abaixo da média histórica.

O cenário de clima seco começa a preocupar os produtores. No último mês, agrônomos da DATAGRO identificaram em alguns canaviais de São Paulo problemas em solos arenosos, onde folhas das plantas começaram a enrolar. No estado, as chuvas estiveram 53,2% abaixo do normal em dezembro, quando o índice de chuvas chegou a 102,4 mm.

Para os próximos meses, as previsões climáticas indicam um cenário de chuvas esporádicas e menos distribuídas. Mesmo sob os efeitos do El Niño, que tem 90% de chances de acontecer neste ano, as precipitações podem ficar abaixo do esperado no Centro-Sul.

Mesmo com prognóstico de clima seco, ainda é cedo para dizer qual efeito esse cenário terá sobre o volume de cana que será processada. Para 2018/19, a DATAGRO estima que a moagem de cana na região alcance 564,5 milhões de toneladas.

Uagro

Plantas geneticamente modificadas têm ajudado a aumentar a produção nos campos brasileiros e no mundo. A primeira cana-de-açúcar geneticamente modificada e comercializada é de origem brasileira. A cana CTC 20 Bt foi desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e passou por avaliação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) que a considerou segura sob os aspectos ambiental, de saúde humana e animal em meados do ano passado.  “A comercialização desta cana brasileira é um marco que reforça o potencial e a qualidade da pesquisa nacional e coloca o país na vanguarda das pesquisas com biotecnologia de plantas”, enfatiza o diretor de Etanol Celulósico e Assuntos Corporativos do CTC, Viler Janeiro.

A cana geneticamente modificada (GM) permite o controle mais eficiente e a redução das perdas em virtude do ataque de pragas, resultando em aumento de produtividade, redução de custo e melhoria da qualidade na indústria. O uso da cana transgênica ainda pode viabilizar a expansão da cultura em áreas onde a broca da cana é uma condição limitante, contribuindo para o aumento da competitividade do Brasil na produção de açúcar e etanol.

Segundo Janeiro, o processo de introdução da nova variedade tem sido muito positivo, Desde outubro de 2017 até o momento, cerca 400 hectares de mudas da variedade geneticamente modificada foram plantados nas principais usinas e fornecedores da região Centro-Sul do Brasil.

O diretor complementa que o crescimento da área com a CTC 20 Bt será gradual, uma vez que as novas plantas serão replantadas para expandir a área cultivada e não usadas para a produção de açúcar e etanol. “Este processo já ocorre na introdução de variedades convencionais e está alinhado com o cronograma de obtenção das aprovações internacionais do açúcar produzido a partir da cana geneticamente modificada”, explica.

Recentemente, a Health Canada, responsável por avaliar a segurança e o valor nutricional de alimentos no Canadá, aprovou o açúcar produzido a partir da CTC 20 Bt. Assim, de acordo com o órgão canadense, o açúcar proveniente da cana é tão seguro e nutritivo quanto os provenientes das variedades convencionais.

Exploração

Mesmo com um lançamento recente, o Centro de Tecnologia Canavieira ainda continua as pesquisas. O CTC ainda deve disponibilizar para o mercado outras variedades transgênicas resistentes à broca, principal praga que ataca a cultura no Brasil e causa prejuízos estimados em R$ 5 bilhões anuais ao setor sucroenergético. Viler explica que adicionalmente, o Centro trabalha no desenvolvimento de variedades resistente ao Sphenophorus levis  – bicudo da cana-de-açúcar -, além de espécies tolerantes a herbicidas e com projetos de desenvolvimento de uma cana-de-açúcar tolerante à seca. “Esses produtos estão em diferentes estágios de pesquisa e passarão pelos processos aprovação, de acordo com a legislação vigente, tão logo cheguem nesta fase”, conclui.

Outra empresa focada no desenvolvimento da transgenia em cana de açúcar é a Embrapa Agroenergia. Atualmente quatro projetos merecem destaque e seguem a mesma linha do CTC. Iniciado em 2008, a Embrapa desenvolve a variedade tolerante a déficit hídrico, que já foi a campo em duas localidades para testes– em Quirinópolis (GO) e em Valparaiso (SP)-, com o objetivo de avaliar a performance agronômica e parâmetros fisiológicos em condições reais de campo. Em parceria com o CTC, o Centro Internacional Japonês para Pesquisas em Ciências Agrícolas (Jircas), a Embrapa Agroenergia avaliou o potencial com o gene de tolerância a seca na cana, que já foi testado em outras culturas de plantas, como soja, amendoim, trigo, arroz e outras.

Os resultados em situação real de campo mostrou que o material tem uma característica interessante, tanto para a tonelada de cana por hectare (TCH) quanto o açúcar (TPH). “Mesmo passando pela seca, essas materiais conseguiram manter o TCH e a o TPH, também houve manutenção da biomassa e do açúcar em ambos os locais”.

Para reforçar os resultados, no mês de setembro, a espécie vai seguir para uma nova unidade de testes, na Fazenda Sucupira (DF), que é credenciada pela CTNBio. “Nesta etapa vamos fazer avaliações em condições reais por mais dois ciclos na cana planta e na soca”, explica o pesquisador da Embrapa, Hugo Molinari. Ainda não há previsão de este espécie ser comercializada.

Outro estudo é a tolerância da cana ao alumínio. Grande parte do solo do cerrado tem alta taxa deste elemento químico, que é toxico para produção agrícola, inclusive para a cana-de-açúcar. A calagem e a gessagem são opções de amenizar o problema, mas existe a alternativa de gerar uma variedade tolerante ao alumínio, permitindo ganho na produtividade, com a redução das perdas.

A pesquisa iniciou em 2011 e já passou por testes em laboratórios e casa de vegetação. A próxima etapa é ir a campo. “Os resultados são bem promissores”, avalia Molinari.  Para seguir para a próxima etapa, a pesquisa procura um solo que rico em alumínio, que ainda não foi corrigido pelo homem.

Outra pesquisa em destaque da Embrapa Agroenergia é a de modificação da parede celular, isso é, a biomassa visando atender o mercado de etanol de segunda geração (2G).Atualmente, o problema é acessar esses açúcares, que estão “aprisionados” em estruturas complexas presentes nos vegetais que elevam o valor do etanol de segunda geração.

Esta nova variedade em estudo tem como objetivo reduzir os custos por meio de uma biomassa diferenciada. Com as variedades em teste já é possível extrair até 28% a mais de açúcar. “Para este estudo estamos procurando parceiros para dar continuidade e avaliar todos os parâmetros do estudo de viabilidade técnica e econômica”, explica o pesquisador.

Parcerias recentes

Uma pesquisa recente, iniciada em novembro 2017, em parceria com uma startup PangeiaBiotech, Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) o objetivo de desenvolver variedades de cana-de-açúcar transgênica para controle biológico da broca-da-cana e facilitar o manejo da cultura com o herbicida glifosato.

Mesmo com pouco tempo de trabalho, Hugo afirma que já há resultados interessantes. O  material com dois genes Cry diferentes resistentes a broca e um gene resistente ao herbicida glifosato já esta na casa de vegetação para a realização de experimentos. Os primeiros testes já foram realizados, com a inoculação da broca nas folhas das plantas. Os pesquisadores esperaram duas semanas, para verificar se a broca ia se alimentar da cana. “Neste bioensaio tivemos sucesso. Das cerca de 120 materiais diferentes testados, 90% resistiram à broca. Agora estamos fazendo os testes com os herbicidas para fazer novos testes”, avalia.

Após estas avaliações, novas serão feitos para verificar se não há efeitos indesejados, como comprometimento do crescimento da planta, redução do colmo, isso é, alguma diferença estrutural da planta mãe. “Após esta fase selecionamos os materiais que vão a campo,” explica Hugo..

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O Brasil tem a capacidade de produzir o etanol para substituir 13,7% do petróleo consumido no mundo. Um estudo identificou que para isso, é necessário aumentar a produção da cana-de-açúcar no território brasileiro em áreas que não são de preservação ambiental ou destinadas à produção de alimentos.

Além disso, essa substituição pode ajudar a reduzir as emissões globais de dióxido de carbono (CO2) em até 5,6% em 2045 e impedir o aumento da temperatura do planeta, já que o etanol é menos poluente que a gasolina e outros combustíveis fósseis. Devido ao lançamento de gases tóxicos, a temperatura subiu 0,75 graus em comparação a Revolução Industrial e, se a poluição continuar, a expectativa que chegue em 2030, mais elevada em 1,5 graus.

Segundo o professor da Universidade de São Paulo (USP), que é um dos autores do artigo e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, Marcos Buvkeridge, a expansão dos canaviais brasileiros permite a redução da queima de combustíveis fosseis, conforme definido na COP-21, em Paris, em 2015. Buvkeridge destaca ainda que para reduzir a emissão de gases de efeito estufa deve-se parar com as queimadas na Floresta Amazônica e produzir mais etanol.

A pesquisa

Para estudar a expansão do cultivo de cana-de-açúcar no Brasil, os pesquisadores utilizaram um software desenvolvido na University of Illinois Urbana-Champaign que simula o crescimento de plantas como a cana-de-açúcar por hora e com base em parâmetros como composição do solo, temperatura, incidência de chuva e de seca. “O Brasil tem área, tecnologias de plantio em cana e desenvolvimento na produção de álcool de segunda geração. O potencial existe, mas faltam políticas governamentais. O Governo tem que querer fazer”, explica  o professor. Ele ainda pontua que para o mundo acreditar no poder do etanol brasileiro, é necessário desenvolver uma boa gestão interna do setor sucroenergético brasileiro e, com isso, conseguir a confiabilidade do exterior.

O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Feagri-Unicamp), do Instituto de Biociências (IB-USP) e da Escola de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq) da Universidade de São Paulo, em colaboração com colegas da University of Illinois Urbana-Champaign e da Iowa State University, dos Estados Unidos, além da University of Copenhagen, da Danish Energy Association e do National Center for Supercomputing Applications, da Dinamarca, e da Lancaster University, do Reino Unido. O estudo contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol. A pesquisa calculou que crescimento da área de plantio deve ser iniciado o quanto antes. “Temos pouco mais de uma década para nos adequar”, revela. O estudo simulou três diferentes cenários.

No primeiro, a expansão do cultivo dos canaviais é limitada às atuais áreas de pastagem que poderiam ser substituídas por lavouras de cana, apontadas pelo Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar (Zae Cana), lançado em 2009 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Já no segundo a produção considera o aumento na demanda de alimento nas próximas décadas devido ao aumento populacional. Neste cenário, os canaviais expandiriam além das áreas disponíveis para cultivo identificadas pelo Zae Cana, como também para aquelas que não serão necessárias para plantio de culturas alimentares e alimentos para animais e que poderiam ser disponibilizadas para lavouras de cana. O terceiro panorama é igual ao segundo, com a diferença de que inclui áreas de vegetação natural e seminatural que poderiam ser convertidas legalmente em lavouras de cana.

As análises indicaram que o cultivo de cana para produção de etanol poderia ser expandido para entre 37,5 milhões e 116 milhões de hectares nos três cenários. Dessa forma, o etanol obtido da cana poderia fornecer o equivalente a entre 3,63 milhões e 12,77 milhões de barris de petróleo bruto por dia em 2045 no cenário estimado de mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que se asseguraria a preservação de áreas de florestas e as destinadas para produção de alimentos. Com esses panoramas é possível diminuir entre 3,8% e 13,7% o consumo de petróleo bruto e entre 1,5% e 5,6% as emissões líquidas globais de CO2 no ano de 2045 em relação aos dados de 2014.

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O uso de biofertilizantes nos canaviais é cada vez mais uma opção para ajudar na melhoria da produtividade. Afinal, ele permite o melhor desenvolvimento das plantas. A Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) é um processo pelo qual bactérias transformam o nitrogênio atmosférico em amônia, que é utilizada pelas plantas para se desenvolverem. Enfim, o nitrogênio do ar se torna em alimento, como açúcar, no caso da cana, diminuindo a necessidade de produtos industriais para permitir o enriquecimento do solo.

Várias bactérias que são utilizadas para realizar a FBN também estimulam o crescimento das raízes por meio da produção de hormônios, e isso permite com que os nutrientes do solo possam ser obtidos pela planta com maior facilidade. O objetivo do biofertilizante é proporcionar a redução de custos e reduzir a emissão de gases de efeito estufa sem perda de produtividade.

Milho, trigo e para várias leguminosas como a soja, feijão, amendoim já têm desenvolvidos inoculantes comerciais que atuam na promoção de crescimento da planta, tendo como base bactérias fixadoras de nitrogênio. Agora, a Embrapa Agrobiologia prevê em breve um para a cana-de-açúcar. A expectativa é que o biofertilizante da cana esteja nas prateleiras em um período máximo de cinco anos.

Segundo a pesquisadora da Embrapa Agrobiologia, Verônica Reis, um trabalho recente realizado mostra que plantas de milho inoculadas com determinadas bactérias foram capazes de absorver 50% mais nitrogênio do adubo nitrogenado. “Acredita-se que esse potencial também possa ser atingido na cultura da cana-de-açúcar inoculada, o que ainda é objetivo de estudos em andamento”, explica.

Para o trabalho foram selecionadas cinco bactérias capazes de fixar nitrogênio para a cultura da cana-de-açúcar. “Algumas delas também se mostraram capazes de promover crescimento de raízes, aumentar o perfilhamento e desenvolvimento da planta”, acrescenta Reis.

O uso

A pesquisadora complementa que com o inoculante pretende-se usar bactérias fixadoras de nitrogênio e também promotoras de crescimento, como um produto biológico e eficiente que promova o maior enraizamento das plantas, produção de perfilhos, acúmulo de nutrientes e, em especial nitrogênio, e consequentemente há aumento na produtividade e longevidade dos canaviais.

Assim, será possível a redução das quantidades de adubo atualmente recomendadas para a cultura. O que implica na redução dos custos da produção e no impacto ambiental gerado pelo uso dos adubos nitrogenados. “Mas, mesmo que não haja redução de doses dos adubos, a maior eficiência de utilização dos mesmos pelas plantas inoculadas já representará importante contribuição para reduzir efeitos negativos sobre o ambiente”, pontua a pesquisadora.

O também pesquisador da Embrapa Agrobiologia, Bruno Alves, realça que quanto maior for a redução das quantidades de adubos nitrogenados aplicadas à cana em função do uso do inoculante, maior será a mitigação de emissões de gases de efeito estufa. “A síntese de amônia industrial é um processo que requer energia fóssil – petróleo, gás-, e, por isso, a fabricação de adubo nitrogenado implica em emissão de gás carbônico (CO2) para a atmosfera. Além disso, o adubo nitrogenado depois de aplicado no solo sofre transformações que resultam em produção de óxido nitroso (N2O) que é um potente gás de efeito estufa, com capacidade de aquecimento da atmosfera equivalente a 300 vezes a do gás carbônico”, pontua.  Por isso, o uso de inoculantes pode representar uma importante estratégia na agricultura para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Os estudos da Embrapa Agrobiologia são realizados juntamente com o setor privado, que tem interesse na tecnologia para desenvolver um inoculante comercial e testar sua eficácia em plantios comerciais da cana. Canal-Jornal da Bioenergia

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A cana-energia também conhecida como “super cana” é uma variedade genética desenvolvida com mais folhas e fibras e dedicada para ser matéria-prima na produção de energia elétrica ou etanol de segunda geração, a partir da palha e do bagaço e para produção de químicos a partir de material celulósico.  Assim, a característica desta variedade é ter muita folha e baixo teor de açúcar. Embora muito mais produtivas do que a cana convencional, um dos obstáculos do maior uso desta variedade é a dificuldade de cristalizar a sacarose de seu caldo para produção de açúcar de mesa –  que é o produto mais rentável para as usinas.

A pesquisa

Assim, a um grupo de pesquisadores do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) desenvolveu uma levedura a partir da levedura comercial Pedra 2 – uma das mais utilizadas no Brasil para produção de etanol desenvolvida na Usina da Pedra –, que possibilitou superar essa dificuldade. A levedura comercial, ainda sem nome, foi patenteada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e já pode se utilizado comercialmente no setor sucroenergético.

A pesquisa multidisciplinar envolveu pesquisadores da área de biologia molecular, processos e industrial e foi desenvolvida por Paulo Eduardo Mantelatto, Jaciane Lutz Ienczak, Leandro Vieira dos Santos, Tassia Lopes Junqueira, Charles Dayan Farias de Jesus e Gonçalo Amarante Guimarães Pereira sob a coordenação da responsável pelo programa de Cana-Energia do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), Maria Carolina Grassi.

No caldo da cana-energia são encontrados basicamente três tipos de açúcares: glicose, frutose e sacarose. O último é o açúcar de mesa, mas índice do mesmo da “super cana” não é alto, assim, quando se tenta cristalizar o caldo  o processo não é realizado. Diferentemente da cana tradicional, que a quantidade da sacarose é alta. “Na cana tradicional a cristalização é fácil. Na cana-energia, o índice dos outros açucares atrapalha no processo”, explica Carolina.

A levedura modificada consome apenas a glicose e a frutose do caldo da “super cana”. A novidade desenvolvida em laboratório consome primeiro os açucares não utilizados na cristalização, produzindo o álcool a partir disto e, depois, o açúcar que sobrou, que é apenas sacarose, é facilmente cristalizado.

Com o uso da levedura modificada, a produção de açúcar varia de acordo com a variedade da cana-energia. “Com o uso da levedura a cana-energia terá a mesma concentração da cana tradicional ou até um pouco mais, o obstáculo da cana energia que era a produção de açúcar foi resolvido”, pontua.

A “Super cana”

Esta variedade genética é obtida a partir do cruzamento de Saccharum officinarum – selvagem e rica em açúcar – e Saccharum spontaneum – selvagem e rica em biomassa-, que apresentam maior teor de fibras e robustez. E já está no mercado sendo desenvolvida atualmente pelas empresas privadas –  Vignis, GranBio- e pelas agências governamentais –  Instituto Agronômico (IAC) e Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (Ridesa).

A ideia inicial da cana-energia é uma variedade com muita biomassa e uma alta produtividade. Por isso, para se mensurar, um hectare de cana-energia gera 170 toneladas, já a tradicional o resultado é de 90 a 95 toneladas por hectare. Em fibras, a primeira tem 27% na composição e a segunda entre 15 a 17%. Esses valores são variáveis. Mas, no entanto, o mercado de açúcar é muito grande. Mas neste quesito, a cana-energia apresenta um número inferior a tradicional, em média 8,5% por indivíduo, quanto a tradicional é de 12%.

Para o investidor, aumentar a produção de açúcar da cana-energia é um caminho viável. Segundo Maria Carolina Grassi, a cana-energia pode ser a solução para a perda de produtividade nos canaviais brasileiros. “Nos últimos anos a produção decresceu devido à mecanização, no qual houve o aumento do pisoteio dos canaviais pelas máquinas, perdendo a rebrota da cana na próxima safra”, explica.

Ainda está em estudo, mas cana-energia se apresenta também mais resistente em comparação a tradicional, sofre menos com o estresse hídrico – ausência ou chuva em excesso – , resiste mais as pragas e consegue possui uma média de corte superior, uma média de dez cortes. A tradicional chega a cinco cortes decrescentes.

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